sexta-feira, 18 de setembro de 2015

O sorriso de uma criança

Vinha hoje nos transportes para o trabalho, como todos os dias, envolto nos meus pensamentos, sozinho, sim, sozinho, pois numa cidade grande como Lisboa, tão grande que ninguém se conhece, os transportes vêm cheios de ilustres desconhecidos. Cada um envolto no seu mistério, como se fosse único naquele espaço. Cada um ignorando que há vida além da sua. Mas isto é tão natural que quando algo foge a este ritmo passa a ser uma anormalidade. Se alguém ousa meter conversa com o vizinho, logo o pensamento de cada um vai para que aquela pessoa não bete bem. Enfim, as consequências trágicas da evolução/regressão sociológica.
Mas hoje, eis senão quando levanto os olhos e reparo numa criança ao colo de sua mãe, com um pão numa mão e a outra, simplesmente dizendo adeus às pessoas. Também eu fui interrompido nos meus pensamentos; olhou para mim, sorriu, sim, sorriu e disse adeus. Eu sorri e respondi àquela ternura, dizendo também adeus. Ela continuou a sua missão de espalhar sorrisos.
Interessante como a inocência de uma criança nos fala tão alto e nos apaga qualquer mau sentimento, mau pensamento ou qualquer preocupação.

Obrigado, Senhor, porque Te serves da inocência para nos trazer à vida, Te serves da pureza e simplicidade dos pequenos para nos acordar. Obrigado, Senhor, por aquele sorriso que preencheu aquele momento e o meu dia e me obrigou a sorrir. Obrigado, Senhor, pelo sorriso desta criança e deste gesto tão simples, mas tão nobre. Obrigado, Senhor!

terça-feira, 30 de setembro de 2014

SER OU TER?

Hoje é uma preocupação da maioria das pessoas, ter uma boa posição, ter um bom salário para sustentar a família e viver desafogadamente, ter uma boa casa, ter um bom carro, ter dinheiro para viajar, ter, ter… Isto não passa de um lugar-comum numa sociedade que prima pelo materialismo, pelos números, por uma economia de mercado e forte, por ser uma sociedade que produz muita riqueza, mais do que o concorrente mais próximo, mais que tudo e todos, para depois alcançar a globalização. Ter tudo!
Neste ter não cabe o ser. Afinal o ser parece ser algo que não importa hoje. Ser boa pessoa e não ganhar muito dinheiro, não serve. Ser uma pessoa que se preocupa com o outro e não ter uma boa posição social, não serve, afinal fica no anonimato. Ser uma pessoa em que o valor “família” é mais que tudo e depois não ter sucesso na empresa, não serve, afinal a carreira é mais importante que o resto.
Na escola/universidade é muito importante ter boas notas, “ser” bom aluno, para ficar em primeiro lugar no curso e depois poder estar à frente de todos para escolher o melhor emprego, aquele que paga melhor, aquele que dá mais estatuto, aquele em que posso subir mais rapidamente na carreira, etc. etc. Fica para trás o não ser o melhor aluno para vir a ser o melhor profissional.
É aqui que penso estar o fulcro da questão: afinal, que é mais importante, é ser o melhor aluno, ter as melhores notas ou ser o melhor profissional?
Se pensarmos numa das mais importantes, para não dizer a mais importante, a medicina, penso ilustrar muito bem o tema.
Tantos e tantos alunos que frequentam este curso, porque afinal são os melhores alunos, têm as melhores notas, podendo por isso chegar ao curso mais apetecido e ao mais desejado. Porquê? Ganha-se bem, dá estatuto, é-se importante na sociedade, têm-se muitos privilégios. Mas fica na gaveta o mais importante de tudo: ser o melhor profissional.
Esta ideia é transversal a toda a sociedade: muito poucos se preocupam no ser e muitos se preocupam no ter.
Vivemos na sociedade do “ter” e desprezamos o “ser”. Este “ser” não é mais que o “ser pessoa”, não é mais que dar o real valor à vida, ao bem-estar do outro, à preocupação pelo outro. É que este “outro” não é mais que o espelho do “eu”. Na medida em que sou para o outro, sou para mim.
O “ser” é o eu “despedido”, sem preconceitos, é o ser que mostra o que é, nada esconde. O ter é o “eu” “vestido”, ostentando apenas o exterior, encobrindo “os podres” do interior.

Vale mais ser o melhor profissional, mesmo com as piores notas, do que ter as melhores notas e ser um péssimo profissional.

Quando a porta se fecha

Estava hoje a pensar numa situação que me aconteceu, em que tive necessidade de usar esta expressão.
Interessante como a usamos tantas vezes e não a reflectimos, como era o meu caso. Ora, ao parar tive necessidade de explicar o porquê desta expressão.
Na vida de cada um existem momentos bons e momentos menos bons. Dos bons, normalmente não falamos, mas dos maus temos sempre referências menos boas. E é isso que nos faz relembrar a expressão.
Claro que quando necessitamos de levar uma palavra ao outro a expressão tem um peso e uma actualidade imensurável, até porque há que dar ânimo ao que passa por momentos menos bons. Mas quando nos toca a nós essa verdade transforma-se apenas numa verdade para os outros. É aí que a sua actualização se trona necessária.
Porquê é que isto me aconteceu?
Antes via a porta totalmente aberta e a luz que de lá vinha era de tal forma intensa e plena que quando a porta se fecha tenho os olhos com tal claridade que me impede de ver a pouca claridade que de lá irradia. É a janela que se abre, mas como a sua luz é mais fraca que a da porta, é a luz da porta que me ocupa e tolda o ser. Não consigo ver mais nada. É aí que surge o porquê.
É necessário que, após o fecho da porta, eu tenha a capacidade de apagar a luz que acabou e permitir ao meu ser olhar e vislumbrar a pouca luz, mas que por ser pouca não deixa de ser luz, e é essa a que se torna importante nesse momento.
É como olhar o sol e imediatamente após procurar ver as estrelas; elas não aparecem, mas estão lá. O que preciso é da capacidade para mergulhar no meu íntimo, por alguns instantes, e permitir depois o vislumbrar das estrelas, olhar e apreciar o seu brilho.
É como a maré cheia que me impede de ver a beleza que se esconde do que lá estava antes. É necessário deixar que a maré vaze, de forma tão natural quanto possível, para depois poder apreciar a beleza que agora aparece e que antes estava escondida.

Como em tudo na vida, e nada acontece por acaso, é necessário ser ponderado, calmo, expectante, sereno e aguardar com serenidade o desenrolar dos acontecimentos. Eu não posso forçar o meu crescimento, não posso forçar o dia de amanhã, que até pode nem chegar. O que posso é ser paciente e aguardar o brilho que se esconde por detrás daquilo que parecem ser as trevas.

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Igreja de Cristo

Acabei de ler um dos muitos livros que por aí andam acerca do nosso papa Francisco. Claro que todos juntos e mais todos os que ainda hão-de vir não chegam para falar deste Homem. Sim, porque não há palavras que o possam descrever, nem eu vou tentar fazê-lo. Muitas das suas mensagens e atitudes fazem o nosso dia-a-dia e muitos dos seus pensamentos estão a incomodar muita gente. Também a mim. Finalmente temos alguém que quer uma Igreja desinstalada (não posso esquecer todo o legado que o saudoso João Paulo II nos deixou, que talvez tenha sido o inspirador, ou mais um dos inspiradores de Francisco), uma Igreja que não deve olhar para si, mas por si. Uma Igreja à medida de Jesus Cristo. Claro que isto dá trabalho, compromete e deixa marcas. Mas se não formos cristãos desinstalados, comprometidos, cristãos que só o são por causa dos outros, que valor tem dizer que somos cristãos? É neste sentido que coloco nas mãos do Senhor que quer vir, em cada dia ao meu coração, todo o sofrimento que me rodeia. Sim, as pessoas que já foram ou estão para ser intervencionadas, as pessoas que sofrem a partida de alguém muito querido, as pessoas a quem a dor bate à porta. Senhor, faz-Te presente na vida e no coração de todos e cada um, de forma particular nos que sofrem e dá a força necessária ao nosso querido papa Francisco, para que possa sempre ter a Tua força, a força do seu inspirador, S. Francisco de Assis, para continuar a fazer desta Igreja a Tua Igreja.

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Quaresma, tempo da re-volta

Todos os dias ouvimos que a quaresma é um tempo forte, um tempo para a oração interior, para o recato, para a interiorização. É verdade. Mas e se disséssemos que a quaresma é um excelente tempo para a revolta, não seria mais apropriado?
Sim, é um óptimo tempo para revolta interior, um tempo para rever o que está mal e voltar à harmonia. É que revolta pode ser lido com re-volta, regresso à harmonia, ao encontro pessoal, com Deus e com os irmãos. É que quando falamos num regresso, não podemos falar num retrocesso, mas sim num avanço, pois esta re-volta tem que ser a procura do eu, a procura do eu que Deus criou e a quem Deus continua a estender a mão e a dizer constantemente: “Tu és meu filho, Eu hoje te gerei” Act 13, 33. E neste “Eu te gerei” está contido TODO o amor que Deus tem por cada um de nós e nesse amor está toda a entrega d’Ele por nós através de Seu Filho, Jesus Cristo. É que nessa entrega está a importância que o homem tem para Deus. Ele é o fruto mais “perfeito” de Sua criação e por isso mesmo é aquele de quem Deus cuida com carinho, com amor. Deus sofre pelo sofrimento de cada um de nós e por isso nos pede que re-voltemos a olhar para esse sofrimento. Ele é fruto da ruptura que nós criamos para com Deus. É precisamente o pecado, o nosso pecado que nos afasta de Deus e pede que paremos, que façamos esta re-volta à harmonia.
É tempo da re-volta, do re-olhar para o belo que Deus coloca, diariamente no nosso caminho, na nossa vida, e ver quão harmonioso é o caminho oferecido por Deus. É tempo de parar e re-visitar cada encontro que aceitamos, com Deus. É tempo de parar e re-colocar a nossa mão e a nossa vida na mão estendida de Deus. É tempo de re-entender que somos criação, que somos a criação mais desejada e querida por Deus, que somos e fomos criados à Sua imagem e semelhança.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

Hoje não sou eu que escrevo, é minha filha. No meu aniversário recente ela deu-me, como já vai sendo hábito, um texto com uma foto de fundo, a qual não reproduzo por motivos obvios. Acho que minha filha tem uma forma de escrita muito própria e muito forte. É muito profunda.
Quero partilhar este belo e muito significativo texto.

Acontece às vezes que, sem me aperceber, dou por mim a pensar nos “se...”. Dou por mim a olhar para trás, e para diante e para o momento, e para o que nunca foi ou para aquilo que talvez nem nunca chegue a ser. Penso apenas, e sinto. E volto a pensar e por vezes reflicto, e falo, e refilo e arrependo-me e volto atrás, ou se calhar nem tanto atrás, se calhar volto apenas a mim, ao hoje, ao que sou e a quem muito (ou tudo) devo e sabes … apareces sempre tu! Em qualquer momento, em qualquer passado, presente ou futuro, em qualquer fui, sou ou serei. E porquê? Porque sim, porque é inevitável e porque assim quero que continue, porque tu és e fazes parte de mim, mais do que nunca, mais do que sempre, fazes parte; fazes parte e não é só pelo sangue, pela genética ou hereditariedade, por aquilo que dizem que nos liga; é sim porque tu és como o meu coração (para aqueles que dizem que é o coração o centro do nosso corpo, aquilo que nos faz viver), ou como o meu cérebro (para os outros que poem o cérebro no lugar do coração). Porque tu és os dois desde que isso represente a essência do meu ser, desde que isso mostre o quão depende sou de ti (e de uma forma mesmo saudável), como um vício bom e que sem ele já não posso mais viver. E porque às vezes as palavras enganam, porque por vezes quando fluem são mal interpretadas ou lhes é retirada a devida importância ou verdade. Mas sabes, quanto a mim eu não tenho dúvidas, sei que se elas fluem e voam para este papel é porque são mesmo sentidas e têm de ser ditas, escritas, deixadas num registo em que possam ser varias vezes consultadas se isso for necessário, porque é o meu coração a falar da forma que consegue, porque se Ele me pega na mão e me sopra ao ouvido eu tenho de Lhe fazer a vontade porque sei que é o que devo fazer, porque sei que Ele sabe que é isso mesmo que eu quero dizer, e também sei que Ele sabe que nunca existirão palavras, sons ou gestos suficientes para representar aquilo que foste, és e sempre serás para mim.
 Porque tu és mais que uma das razoes de eu poder estar a escrever isto; porque tu és mais do que a razão de tudo isto que eu estou a sentir e que é tão puro e verdadeiro; porque tu és mais que o meu ídolo; porque tu és mais que o meu exemplo; porque tu és mais do que aquele que quando está triste me faz ficar triste também; porque tu és mais do que aquele que quando, por razões desconhecidas, certas palavras aparecem em sítios e alturas erradas e me fazem chorar por te terem acertado e ferido de uma forma que nunca quis nem quero; porque tu és mais que um pai, que um amigo ou irmão; porque tu és mais que tudo e porque tu és aquele que quando eu penso nos “se…” me faz perceber que se há “se…” na minha vida que me fazem fraquejar, o “se tu não existisses…” é o que me faz tremer de uma forma incontrolável e me faz perceber que “se tu não existisses…” (independentemente da genética e biologia humanas) eu também não conseguiria mais viver!
! AMO-TE PAI !

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O advento dos homens


Falamos em advento e a maioria dos homens não sabe o que é. Falamos em Natal e todos os homens sabem o que é. São as contradições da humanidade. É que ao Natal todos associam prendas, quer sejam crentes, cristãos ou não. Mas se dissermos que o advento é a preparação para o Natal, os cristãos sabem o que é e procuram que esse tempo seja mesmo de advento, de espera, de esperança, de preparação interior para o nascimento de Jesus Cristo.
Ora e não vivem também advento aqueles que não acreditam ou que mesmo acreditando ignoram o verdadeiro sentido do advento? É isso! Todos vivem este tempo numa enorme euforia para fazer as compras de natal, as prendas. Não estão eles a preparar o natal? Claro que o natal que preparam é o natal profano, o natal do consumismo. Mas esquecem-se que esse natal que preparam só existe porque existe o Natal de Jesus Cristo e esse não é, de todo, um tempo de compras, mas um tempo de vendas. É um tempo de vender, ou deitar fora tudo o que oprime, tudo o que é fútil, tudo o que é excesso, tudo o que leva o homem à perdição, tudo o que ocupa espaço indevido. É um tempo para arrumar a casa e criar espaço para que o verdadeiro Natal aconteça. É um tempo para preparar o coração para a chegada daquele que só Ele pode preencher na totalidade o coração de cada homem. Só Ele consegue preencher o coração e a vida do homem sem que passe “de validade” ou que o seu tempo passe, ou que seja substituído por uma nova tecnologia ou que fique velho e caduco ou que mesmo se acabe por esquecer.
Cristo é o único que mantém actualidade e que é motivo para que se “profanizem” certas datas. É o caso do advento. Todos o vivemos e todos nos preparamos para o Natal. Não sabemos o seu sentido, mas sabemos que é tempo dele, é tempo de encher os bolsos a uns quantos que se aproveitam do advento e de outras datas cristãs para impingir e fazer crescer os seus negócios. Não critico quem tem uma porta aberta e faz do negócio o seu ganha pão. Critico sim que se aproveitem daquilo que é mais genuíno, a fé e a ela nada deem.
O advento é para os homens mas ele só faz sentido se for vivido com e para Deus. O advento faz sentido quando for uma caminhada sincera que me relança na relação com Deus, que me leva a responder ao apelo continuado de Deus: Vem!