Hoje é uma preocupação da maioria das pessoas, ter uma boa posição, ter
um bom salário para sustentar a família e viver desafogadamente, ter uma boa
casa, ter um bom carro, ter dinheiro para viajar, ter, ter… Isto não passa de
um lugar-comum numa sociedade que prima pelo materialismo, pelos números, por
uma economia de mercado e forte, por ser uma sociedade que produz muita
riqueza, mais do que o concorrente mais próximo, mais que tudo e todos, para
depois alcançar a globalização. Ter tudo!
Neste ter não cabe o ser. Afinal o ser parece ser algo que não importa
hoje. Ser boa pessoa e não ganhar muito dinheiro, não serve. Ser uma pessoa que
se preocupa com o outro e não ter uma boa posição social, não serve, afinal
fica no anonimato. Ser uma pessoa em que o valor “família” é mais que tudo e
depois não ter sucesso na empresa, não serve, afinal a carreira é mais
importante que o resto.
Na escola/universidade é muito importante ter boas notas, “ser” bom
aluno, para ficar em primeiro lugar no curso e depois poder estar à frente de
todos para escolher o melhor emprego, aquele que paga melhor, aquele que dá
mais estatuto, aquele em que posso subir mais rapidamente na carreira, etc.
etc. Fica para trás o não ser o melhor aluno para vir a ser o melhor
profissional.
É aqui que penso estar o fulcro da questão: afinal, que é mais
importante, é ser o melhor aluno, ter as melhores notas ou ser o melhor
profissional?
Se pensarmos numa das mais importantes, para não dizer a mais
importante, a medicina, penso ilustrar muito bem o tema.
Tantos e tantos alunos que frequentam este curso, porque afinal são os
melhores alunos, têm as melhores notas, podendo por isso chegar ao curso mais
apetecido e ao mais desejado. Porquê? Ganha-se bem, dá estatuto, é-se
importante na sociedade, têm-se muitos privilégios. Mas fica na gaveta o mais
importante de tudo: ser o melhor profissional.
Esta ideia é transversal a toda a sociedade: muito poucos se preocupam
no ser e muitos se preocupam no ter.
Vivemos na sociedade do “ter” e desprezamos o “ser”. Este “ser” não é
mais que o “ser pessoa”, não é mais que dar o real valor à vida, ao bem-estar
do outro, à preocupação pelo outro. É que este “outro” não é mais que o espelho
do “eu”. Na medida em que sou para o outro, sou para mim.
O “ser” é o eu “despedido”, sem preconceitos, é o ser que mostra o que
é, nada esconde. O ter é o “eu” “vestido”, ostentando apenas o exterior,
encobrindo “os podres” do interior.
Vale mais ser o melhor profissional, mesmo com as piores notas, do que
ter as melhores notas e ser um péssimo profissional.
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