terça-feira, 30 de setembro de 2014

SER OU TER?

Hoje é uma preocupação da maioria das pessoas, ter uma boa posição, ter um bom salário para sustentar a família e viver desafogadamente, ter uma boa casa, ter um bom carro, ter dinheiro para viajar, ter, ter… Isto não passa de um lugar-comum numa sociedade que prima pelo materialismo, pelos números, por uma economia de mercado e forte, por ser uma sociedade que produz muita riqueza, mais do que o concorrente mais próximo, mais que tudo e todos, para depois alcançar a globalização. Ter tudo!
Neste ter não cabe o ser. Afinal o ser parece ser algo que não importa hoje. Ser boa pessoa e não ganhar muito dinheiro, não serve. Ser uma pessoa que se preocupa com o outro e não ter uma boa posição social, não serve, afinal fica no anonimato. Ser uma pessoa em que o valor “família” é mais que tudo e depois não ter sucesso na empresa, não serve, afinal a carreira é mais importante que o resto.
Na escola/universidade é muito importante ter boas notas, “ser” bom aluno, para ficar em primeiro lugar no curso e depois poder estar à frente de todos para escolher o melhor emprego, aquele que paga melhor, aquele que dá mais estatuto, aquele em que posso subir mais rapidamente na carreira, etc. etc. Fica para trás o não ser o melhor aluno para vir a ser o melhor profissional.
É aqui que penso estar o fulcro da questão: afinal, que é mais importante, é ser o melhor aluno, ter as melhores notas ou ser o melhor profissional?
Se pensarmos numa das mais importantes, para não dizer a mais importante, a medicina, penso ilustrar muito bem o tema.
Tantos e tantos alunos que frequentam este curso, porque afinal são os melhores alunos, têm as melhores notas, podendo por isso chegar ao curso mais apetecido e ao mais desejado. Porquê? Ganha-se bem, dá estatuto, é-se importante na sociedade, têm-se muitos privilégios. Mas fica na gaveta o mais importante de tudo: ser o melhor profissional.
Esta ideia é transversal a toda a sociedade: muito poucos se preocupam no ser e muitos se preocupam no ter.
Vivemos na sociedade do “ter” e desprezamos o “ser”. Este “ser” não é mais que o “ser pessoa”, não é mais que dar o real valor à vida, ao bem-estar do outro, à preocupação pelo outro. É que este “outro” não é mais que o espelho do “eu”. Na medida em que sou para o outro, sou para mim.
O “ser” é o eu “despedido”, sem preconceitos, é o ser que mostra o que é, nada esconde. O ter é o “eu” “vestido”, ostentando apenas o exterior, encobrindo “os podres” do interior.

Vale mais ser o melhor profissional, mesmo com as piores notas, do que ter as melhores notas e ser um péssimo profissional.

Quando a porta se fecha

Estava hoje a pensar numa situação que me aconteceu, em que tive necessidade de usar esta expressão.
Interessante como a usamos tantas vezes e não a reflectimos, como era o meu caso. Ora, ao parar tive necessidade de explicar o porquê desta expressão.
Na vida de cada um existem momentos bons e momentos menos bons. Dos bons, normalmente não falamos, mas dos maus temos sempre referências menos boas. E é isso que nos faz relembrar a expressão.
Claro que quando necessitamos de levar uma palavra ao outro a expressão tem um peso e uma actualidade imensurável, até porque há que dar ânimo ao que passa por momentos menos bons. Mas quando nos toca a nós essa verdade transforma-se apenas numa verdade para os outros. É aí que a sua actualização se trona necessária.
Porquê é que isto me aconteceu?
Antes via a porta totalmente aberta e a luz que de lá vinha era de tal forma intensa e plena que quando a porta se fecha tenho os olhos com tal claridade que me impede de ver a pouca claridade que de lá irradia. É a janela que se abre, mas como a sua luz é mais fraca que a da porta, é a luz da porta que me ocupa e tolda o ser. Não consigo ver mais nada. É aí que surge o porquê.
É necessário que, após o fecho da porta, eu tenha a capacidade de apagar a luz que acabou e permitir ao meu ser olhar e vislumbrar a pouca luz, mas que por ser pouca não deixa de ser luz, e é essa a que se torna importante nesse momento.
É como olhar o sol e imediatamente após procurar ver as estrelas; elas não aparecem, mas estão lá. O que preciso é da capacidade para mergulhar no meu íntimo, por alguns instantes, e permitir depois o vislumbrar das estrelas, olhar e apreciar o seu brilho.
É como a maré cheia que me impede de ver a beleza que se esconde do que lá estava antes. É necessário deixar que a maré vaze, de forma tão natural quanto possível, para depois poder apreciar a beleza que agora aparece e que antes estava escondida.

Como em tudo na vida, e nada acontece por acaso, é necessário ser ponderado, calmo, expectante, sereno e aguardar com serenidade o desenrolar dos acontecimentos. Eu não posso forçar o meu crescimento, não posso forçar o dia de amanhã, que até pode nem chegar. O que posso é ser paciente e aguardar o brilho que se esconde por detrás daquilo que parecem ser as trevas.